UFOPA: nova e já viciada?

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UFOPA: nova e já viciada?

 Santarém, 30 de janeiro de 2014

Edilberto Sena

Assim é titulado um pequeno artigo na edição do JP de nº 552 de janeiro 2014. Ali, Lúcio Flávio Pinto afirma que “a UFOPA tinha um projeto inovador de ensino e pesquisa, para se ajustar às condições ecológicas e sociais da região Oeste do Estado”. Esta afirmação me chamou a atenção pelo… projeto  inovador de ensino e pesquisa, para se ajustar… outra palavra do artigo intrigante foi a do título – …já viciada?  Até podemos concordar que a UFOPA tinha um projeto inovador de ensino e pesquisa.

De fato era inovador, mas não significa que fosse  a melhor opção para se ajustar às condições ecológicas e sociais da região  Oeste do Pará. À época da construção do modelo, houve sim vários debates e reuniões entre o professor Seixas Lourenço com sua equipe de apoio e um grupo da sociedade civil organizada de Santarém, liderada por estudantes da UFPA, então vigente na região.

Nos vários encontros de diálogo, se é que aquilo podia se chamar de diálogo, o professor Seixas Lourenço apresentava um ante projeto, trazido de Brasília, já pronto. Por demanda do grupo da sociedade civil organizada ele sentava à mesa de diálogo, ouvia as propostas de construção da UFOPA, mas não cedia nem um milímetro do que tinha em mãos, vindo diretamente do MEC em Brasília. Em dado momento o reitor da UFPA, Carlos Maneschy  veio a Santarém, sentou à mesa, mas apenas sustentou que a melhor proposta de modelo era a que  vinha de Brasília e não carecia de modificação.

Qual era basicamente o ponto principal de divergência? A proposta dos mocorongos era de que, se a UFOPA seria uma nova universidade dentro da Amazônia, que a Amazônia fosse o objeto de estudos, pesquisa e ciência de qualidade e não uma escola de formação de mão de obra especializada para atender o mercado extrativista mineral e do agro negócio em expansão na região. Que  os cursos servissem para  estudar a Amazônia nos aspectos antropológicos, arqueológicos, ciência das águas, urbanismo e outras ciências humanas. Já a proposta do Seixas Lourenço prioriza os cursos tecnológicos, engenharia disso e daquilo, geologia, etc como pode ser visto no atual  quadro de cursos da UFOPA. Ela se tornou apenas mais uma universidade, que pouco se diferencia da UFPA, UFRA e semelhantes.  Daí que concordamos que ela veio como INOVADORA, mas não NOVA de um novo modelo científico.

Seixas Lourenço, que tinha a carta branca do MEC para construir a nova universidade, foi tão prepotente e arrogante que rejeitou até a proposta de se adquirir uma área nobre de frente para o rio Tapajós e ali construir um Campus universitário digno e até cartão postal, pois seria ao lado da rodovia que leva ao aeroporto Wilson Fonseca. Ele preferiu enfiar a UFFOPA num estreito espaço que fora da UFRA, tendo de um lado um terminal de combustível e as Docas do Pará e do outro, um centro privado  do Iate Clube. Posteriormente alugou um hotel para agasalhar mais estudantes que entram a cada ano.

Mas para não se raciocinar vagamente,  apresento aqui um resumo da proposta A UNIVERSIDADE QUE QUEREMOS que foi matéria dos diálogos  de surdos. Liderado pelo então universitário do curso de direito da UFPA, Laurimárcio Figueira o grupo se apresentou assim:

PROJETO A UNIVERSIDADE QUE QUEREMOS

Santarém – Amazônia, agosto de 2009.

“Outra universidade é possível”

APRESENTAÇÃO

No início era um pequeno e valoroso grupo de estudos do Projeto da UFOPA que se encontraram umas duas vezes e perceberam de antemão que não deveriam travar uma luta sozinhos e perceberam que “o homem coletivo sente a necessidade de lutar” (Chico Science).

Convidaram, então, entidades, sindicatos, estudantes, movimentos sociais e cidadãos em geral para expor o cenário em que se encontrava o processo de instalação da nova universidade: por ora claro, por ora obscuro, além de questões absurdamente inaceitáveis.

Como a Comissão de Implantação restringiu a sociedade e classe estudantil do processo de implantação, foi criado a Comissão Popular para a Nova Universidade, que atualmente militam (em ampliação):

FDA – Frente em Defesa da Amazônia

SINPROSAN – Sindicato dos Professores de Santarém

SINTEPP – Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Pará

FAMCOS – Federação das Associações de Moradores e Organizações Comunitárias de Santarém

UES – União dos Estudantes de Ensino Superior de Santarém

DA/UFPA – Diretório Acadêmico/UFPA – Santarém

CA/UFRA – Centro Acadêmico/UFPA – Santarém

CADED – Centro Acadêmico de Direito Evandro Diniz/UFPA – Santarém

CABIO – Centro Acadêmico de Biologia/UFPA – Santarém

AMDS – Associação de Mulheres Domésticas de Santarém

AMBL – Associação de Moradores do Bairro da Liberdade

Pastoral Social da Diocese de Santarém

Rádio Rural de Santarém

Nosso processo de decisão é coletivo, submetido à sociedade organizada. Mesmo sem recursos financeiros conseguimos realizar nossos eventos com uma logística simples e eficaz.

Em seguida um extrato do projeto coletivo:

INTRODUÇÃO

A criação de uma Universidade na Amazônia é motivo deveras a ser comemorado.

Sim! Se sua intenção for de beneficiar a própria a Amazônia (seus povos, suas

culturas, suas origens). Se sua construção for verdadeiramente coletiva. Se sua implantação for devidamente transparente. Se sua funcionalização for de fato democrática. Se de fato resgatar os fundamentos basilares de uma universidade.

1. VISÃO ESTRATÉGICA

Conceber a Amazônia em seu conjunto social, antropológico, biodiversidade e

recursos naturais como centro de estudos científico e empírico a serviço do desenvolvimento ao alcance de seus povos e do planeta Terra.

2. MISSÃO

Trabalhar a formação para a vida amazônica, levando em conta as fontes autóctones de pesquisa, contribuindo para a valorização das práticas, dos saberes culturais e da humanização das relações sociais e ambientais, através de um modelo de educação questionadora que leve a comunidade acadêmica e populações da Amazônia a serem sujeitos de transformação social.

3. OBJETIVOS

_ Garantir espaço de estudo, pesquisa e extensão que possibilite desenvolver

inteligências a serviço da humanização da vida do mundo, priorizando as populações da Amazônia;

_ Adotar uma metodologia que una fortemente o estudo acadêmico (ensino, pesquisa e extensão), o intercâmbio permanente com o saber empírico das populações locais, numa formação holística associando às ciências exatas, às ciências sociais e às ciências humanas com uma inclusão humanística no processo educativo;

_ Priorizar a criação de um corpo docente competente e de tempo integral e a garantia de espaço físico amplo, adequado, bem estruturado, possibilitando o convívio da comunidade acadêmica, prevendo o futuro da universidade, quando ela terá dezenas de milhares de estudantes, centenas de pesquisadores.

Assim, como Seixas Lourenço tinha carta branca de Brasília as vozes nativas foram ignoradas, ou talvez  consideradas pessoas medíocres e sem capacidade de pensar algo realmente novo. Deu no que está dando e assim, pode se imaginar que a UFOPA já nasceu viciada e o que vem depois é apenas consequência.

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