LUZ PARA TODOS: UM DIREITO VIOLADO NO BAIXO TAPAJÓS

Nota Postado em Atualizado em

Edilberto Sena, coordenador da Comissão Justiça e Paz da diocese de Santarém

Na margem esquerda do rio Tapajós, descendo de Itaituba até Santarém, há uma grande população vivendo em cerca de 60 comunidades ribeirinhas. Estas pertencem a dois municípios, Aveiro e Santarém. No perímetro entre o rio Curi até a comunidade de Vila Franca, as populações só utilizam energia elétrica três horas por noite, queimando óleo diesel em frágeis geradores.

Esta realidade gera grande insatisfação nos centenas de moradores que ouvem pelo rádio a promessa do governo federal do programa Luz para Todos. Na comunidade de Parauá, por exemplo, vivem 200 famílias, que sonham possuir uma geladeira, um liquidificador e equipamentos elétricos de uso doméstico. Quando pescam boa quantidade de peixe, ou matam um veado, são obrigados a salgar, vender ou doar aos vizinhos, por falta de energia elétrica e geladeira. O motor a diesel só funciona das 18 às 21 horas.

Do outro lado do rio tapajós está a comunidade de Maguari, onde a luz brilha à noite toda e a energia chega do linhão de Tucuruí, por Belterra.  Os da margem esquerda olham com indignação as luzes brilhando na outra margem do rio e eles ficando no escuro. E se perguntam por que o programa Luz para Todos não chega até suas comunidades? Bastaria o governo atravessar os cabos que estão bem ali perto. O que falta?

Dona Angélica foi informada que lá adiante de Itaituba a Eletronorte já transpôs o rio com o linhão, levando eletricidade para uma fábrica de cimento e de rebarba, está iluminando a cidade de Itaituba e outras comunidades daquele município. Para este serviço a Eletronorte instalou uma torre alta de um lado do rio e outra do outro lado e os cabos de alta tensão atravessam o rio. Também, dona Angélica foi informada que lá próximo da cidade de Almeirim, a Eletronorte transpôs o rio Amazonas com eletricidade de alta tensão, utilizando uma torre de 300 metros de altura de um lado e outra do outro lado do rio segurando os cabos. De lá em diante levou energia elétrica por 1.800 quilômetros de extensão até a cidade de Itaituba.

O que dona Angélica não sabe é que as duas travessias aéreas dos rios Tapajós e Amazonas, não foram do programa Luz para Todos, mas para atender a zona Franca de Manaus. Afinal, a Eletronorte não presta serviço à população, mas vende caro energia para empresas que podem pagar. Energia elétrica hoje no Brasil é mercadoria rendosa e não serviço à população.

O programa Luz para Todos foi uma promessa demagógica do governo federal, que embora controle a Eletronorte, subsidiária do Ministério das Minas e energia, não prioriza o serviço para a população.

Muitos  moradores ribeirinhos da bacia do rio Tapajós ficam iludidos com promessas de que as hidroelétricas de São Luiz e Jatobá vão servir eletricidade para os moradores das comunidades do Tapajós. Pura ilusão, não sabem ainda, que as hidroelétricas no Tapajós não oferecerão nada aos  moradores da região, pelo contrário, virão desgraças durante e depois de construídas. Rio acima de São Luiz será gerado um lago imenso de 732 quilômetros quadrados e rio abaixo, será um leito de rio seco, mais grave do que em cada verão para a região da margem esquerda do tapajós. Se em cada verão os moradores do Parauá andam um quilômetro a pé e em bajara para chegar ao barco lá no canal, com as hidroelétricas o sacrifício será durante o ano inteiro e toda a vida.

Luz para Todos, uma ilusão proposta pelo governo federal para despertar expectativas nas humildes populações rurais. A Eletronorte não tem compromisso com o programa. Ela se tornou uma empresa comercial, que produz energia elétrica para vender no mercado e suas clientes preferidas são as grandes empresas. Os pobres ribeirinhos da margem esquerda do tapajós continuarão sofrendo com seus motores geradores a diesel, comprando gelo a doze reais um pacote para resfriar o peixe e tomar água fresca. Isso até que um dia sua indignação parta para uma ação firme  exigindo das autoridades que transponham  o linhão que passa do outro lado do rio para atender seu direito, que até hoje está sendo violado. Só com uma ação organizada e bem planejada terão seus direitos respeitados. Se a Eletronorte transpôs os rios Tapajós e Amazonas uma vez, pode bem transpor outra vez para que o Luz para Todos se torne realidade para dona Angélica e todos os moradores do Tapajós. Choramingar, indignar-se, ou fazer abaixo assinado, não resolve mais a questão.

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