Igreja e Sociedade, ou Igreja na Sociedade?

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 Igreja e Sociedade é o tema que as Igrejas cristãs  do Brasil escolheram para a Campanha da Fraternidade deste ano. Esse tema será motivo de reflexões, homilias, encontros de CEBs, e Movimentos religiosos. Será positivo se todos que refletirem sobre o assunto consigam ir além da mera meditação e alguns atos de solidariedade  assistencialista, mas consigam tirar conclusões concretas de vivência profética na sociedade, como foi Jesus de Nazaré em seu tempo, lá na Galileia e Jerusalém.

Igreja e sociedade é um assunto provocante, se bem entendido o significado de sociedade e também o significado de Igreja povo de representantes de Jesus Cristo. O tema poderia ser mais provocativo tipo: Igreja na sociedade, ou Igreja enfrentando a sociedade. Afinal, o que é a sociedade?

No tempo de Brasil colônia de Portugal, por 300 anos a Igreja hierarquia (bispos e padres) vivia ligada e dependente dos governadores, rei e depois do imperador, além dos senhores de propriedades. Índios, escravos e caboclos, mulatos e mulheres não eram sociedade. Nos 80 anos seguintes com a república, começou a haver uma separação entre Estado, Igreja e sociedade. A Igreja passou a se assumir como Povo de Deus, incluindo os leigos, os padres, religiosas e bispos. Mesmo assim, com a vivência fechada para dentro de si, cuidando de salvar seus e suas fiéis, mas desligada das questões da sociedade. Por outro lado, esta foi evoluindo e dentro dela surgiu a sociedade civil organizada em contra ponto ao Estado e suas organizações. Hoje existe o povo em geral, que luta por sua sobrevivência e é manipulado pelos interesses políticos e econômicos. Dentro deste povo surgem os grupos organizados que enfrentam as manipulações dos governos e do poder econômico, ou defendem os direitos humanos da maioria. É o caso, por exemplo, dos movimentos sociais que lutam contra o plano de hidroelétricas na Amazônia, os que lutam por moradia e reforma agrária.

Quando a Campanha da Fraternidade propõe esse tema certamente é com a intenção de que os cristãos marquem presença na sociedade como Jesus Cristo marcou presença na sociedade da Palestina, isto é, para libertar os pobres e oprimidos, abrir os olhos dos cegos dentro da sociedade e denunciar os opressores do povo, tanto os doutores da lei com a religião legalista, como o Herodes, político oportunista que explorava o povo e os romanos invasores estrangeiros que oprimiam as populações. Quem busca entender o projeto de Jesus e sua prática, encontra um líder carismático e rebelde, mas que  atrai a simpatia dos oprimidos da sociedade. Ao mesmo tempo ele atrai  a raiva e perseguição das autoridades, justamente por iludirem o povo, daí o confronto

Hoje, no Brasil acontece semelhante situação, o Estado, o poder econômico, os latifundiários e até a maioria dos políticos usam o povo, exploram o povo e vivem à custa do suor dos pobres. Basta ver o que está acontecendo nestes dias, com a subida da tarifa de energia elétrica, os salários de vereadores, deputados, senadores, juízes, e outros. Também basta ver como o agronegócio da soja destrói florestas, invade a natureza com agrotóxicos e os órgãos do Estado não reprimem. Por outro lado, a ilusão do bolsa família e do minha casa minha miséria chega para dar a impressão de que o Governo se preocupa com os pobres. O Brasil é o maior escândalo de desigualdade social do planeta, com um quarto da sociedade vivendo na miséria, 50 milhões de brasileiros.

A Campanha da Fraternidade hoje convoca os cristãos de todas as igrejas  a saírem de dentro da sua fraternidade de auto salvação, para irem testemunhar a presença profética de Jesus na sociedade. Não basta cantar na celebração dominical – “Comungar é tornar-se um perigo, viemos para incomodar…”, mas que se vá incomodar a sociedade exploradora de seres humanos. É preciso mais do que se converter a Jesus, e querer salvar sua alma no céu. Não é isso que Jesus ensinou e espera de seus seguidores. A sociedade precisa ser transformada, saindo da desigualdade social, exigindo que as autoridades públicas sejam honestas, comprometidas com os direitos humanos da maioria. Não basta dar um prato de comida ao faminto, nem basta limpar sua rua, é preciso ir mais profundo na transformação da sociedade, como fez Jesus em seu tempo. Eis o desafio da CF para todos os cristãos de todas as igrejas.

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