Mês: dezembro 2015

Dia mundial pela paz, onde?

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Editorial – RNA – 29.12.2015

Como construir a Paz, se continua a indiferença para com a mãe Natureza, para com as vidas dos povos da Amazônia? A recente Conferência dos chefes de Estado em Paris, revelou muito bem essa indiferença.

Na próxima sexta feira é o chamado dia mundial pela PAZ. O Papa Francisco convoca todos os seres humanos, com um mínimo de consciência moral a fazerem um gesto concreto em busca da paz. Ele afirma que “Deus não é indiferente, importa-lhe a humanidade. Deus não abandona as pessoas”. Um dos gestos concretos para o dia primeiro de janeiro é que se faça uma marcha de compromissos com a busca da paz, na família, na comunidade, na região amazônica, no país e entre os povos. O clima de violência, de guerras paira sobre todos os pontos do planeta.

A sociedade civil, as igrejas e organizações de direitos humanos precisam liderar essas marchas pela paz na sexta feira. Isto porque não se pode esperar muito das autoridades, que em geral estão preocupadas com crescimento econômico a qualquer custo, com politicagens interesseiras. E aí, os povos da Amazônia são apenas detalhes, ou mais grave, são obstáculos ao crescimento econômico. Basta observar como continua a derrubada de 5 mil e 900 quilômetros de floresta entre 2014 e 2015; basta saber que o governo federal continua ditatorialmente a planejar hidroelétricas em Roraima, no Mato Grosso, no Pará e Amapá. As mineradoras nacionais e estrangeiras continuam explorando tantos minérios, deixando buracos em toda a região e exportando riquezas. Direitos humanos dos povos tradicionais são ignorados pela ditadura do capital. Assim, na Amazônia falta paz. O tráfico de drogas é apenas um sintoma da falta de paz.

O Papa Francisco com sua teimosia profética, apela às autoridades internacionais e nacionais para se buscar uma mudança de comportamento diante da vida humana e a vida do planeta. Literalmente ele apela a uma conversão de cada pessoa e de cada povo, pois a mãe natureza avisa e não perdoará se continuarmos a destruir a paz. O calor quase insuportável, as fumaças rondando a Amazônia nestes dias, os rios secos fora do comum, são todos sinais de que a natureza pede paz.

Portanto, quem tem um mínimo de consciência ética e bom senso precisa querer fazer sua parte, na busca de reconciliação e construção de paz e fraternidade. Daí o dia mundial da paz sugere um gesto concreto, além da caminhada pela paz, no primeiro dia do ano novo.

O tempo não tem tempo, flui!

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Análise da semana para Nossa Voz é nossa Vida – 27.12.2015

O ano está chegando ao fim, aliás, o tempo nem começa, nem termina. A gente é que inventa o calendário, os dias, os meses e os anos. Daí, ficamos com a sensação de fim de ano e ano novo. De fato, nós é que temos início, avançamos em idade e um dia partimos para a outra vida. Mas já que existe o calendário, dezembro está chegando à última semana e, já na sexta feira somos convidados a realizar uma marcha pela paz.

Olhando para trás, os últimos dose meses do nosso calendário, podemos medir até que ponto houve paz e houve violências às vidas humanas, à mãe natureza; até que ponto a paz foi machucada pelo progresso de empresas, de governos e de pessoas insensatas. Por outro lado, medir como a paz foi construída por outras pessoas, comunidades, igrejas, movimentos populares. Pelas avaliações sérias, pode se dizer que no novo ano, o planeta não terá paz e o clima vai ficar mais quente. Isto porque os chefes de Estado perderam oportunidade em Paris no início de dezembro, de tomar decisões sérias para mudar o ritmo de crescimento econômico e salvar o planeta de tantas sujeiras.

Mesmo assim, a convite do Papa Francisco, somos todos convidados a fazer uma marcha pela paz na sexta feira próxima. Organizar isso pelas ruas de sua comunidade, de nossa cidade e no mundo todo onde houver pessoas éticas que buscam a paz. Em Santarém e na sua comunidade, não só católicos, mas os irmãos cristãos de todas as igrejas, como também pessoas que mesmo sem se ligar a uma igreja, mas levam a sério o cuidado pela paz, são convidados a participar da marcha em compromisso com a paz. Afinal, a paz é um bem para todos os seres humanos e a nossa natureza. Basta observar a falta de paz nas matas, com tanto fogo queimando por acidente ou perversamente.

No novo ano, como podemos fazer nossa parte para construir a paz? A realidade não está muito fácil. Será um ano de eleições municipais. Quem merecerá seu e meu voto para vereador e prefeito de nosso município? Pelo que está acontecendo na região, está ficando muito difícil encontrar alguém que mereça nossa confiança para cargos públicos. Prefeitos de vários municípios foram afastados do cargo. Muitos vereadores fazem o jogo dos prefeitos e não assumem sua responsabilidade. Uma das consequências tem sido a paralização da vida pública, com os direitos das comunidades abandonados.

Como construir a paz nessa realidade? Falta água pura em muitas casas, falta tratamento de esgotos e o lixo fica jogado em beiras de estradas e nos quintais; olhando a situação dos sem teto, só na cidade de Santarém são cerca de 20 mil famílias sem casa própria. Quando 600 famílias buscam um terreno que estava vazio e abandonado, chega a justiça e prefere atender especuladores imobiliários e expulsar as 600 famílias da ocupação. Onde estará a paz? E assim por diante.

A marcha pela paz é um convite a todos nós assumirmos compromisso de fazer nossa parte na sua construção. O rio tapajós, poluído pelos garimpos e pelo desmatamento generalizado, agora está expulso pelo rio Amazonas para distante da cidade e pede paz. Mas como? Algo cada um de nós precisa fazer para respeitar a mãe natureza que está reagindo dura, basta sentir o calor cada dia e a falta de chuva.

Essa caminhada pela paz não pode ser apenas um passeio, ou uma procissão devocional. Só terá sentido se for acompanhada de um compromisso sério de todos que creem em Jesus Cristo libertador, e dos que mesmo não crendo se sentem responsáveis pela prática da justiça pra si e para todos, inclusive para com os rios, as matas e o planeta. Como certamente você é uma dessas pessoas organize a marcha pela paz na sua comunidade, por menor que ela seja e aqui em Santarém.

 

Celebrar o natal hoje como?

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Editorial para RNA – 23.12.2015 – pelo Natal

Mais uma vez chegou o tempo de Natal. E da¿ como celebrar este aniversário, que teoricamente é o mais importante para cerca de dois bilhões de seres humanos¿ Assim se pensa, pois quase um quarto de toda a população do planeta se sente de algum modo, ligado a Jesus de Nazaré, o aniversariante de sexta feira próxima. Uma forma celebrativa centraliza no menino pobrezinho na manjedoura e canta “dorme em paz oh! Jesus. Essa forma corre o risco de gerar emoções passageiras que depois do dia tudo continua como antes.

Celebrar o aniversário de Deus, nascido ser humano, que cresceu, tornou-se homem e assumiu seu papel na sociedade e a partir dela, assumiu sua missão na humanidade, assim poderá ter mais significado. Esta maneira pode ser mais realista e comprometedora. Será fazer memória do ontem para o hoje, como aliás o aniversariante queria, quando antes de partir disse aos seus seguidores: “vão pelo mundo e sejam meus representantes, fazendo outros discípulos meus”.

Por exemplo, refletir sobra a presença do aniversariante lá em Cafarnaum, em Nazaré, em Jerusalém, diante da mulher com hemorragia por dose anos, diante do homem cego de Jericó, como também diante de autoridades como Herodes, Pilatos, ou os doutores da lei. Como ele agira e reagia diante das diferentes realidades de seu tempo. E então, em seu aniversário compreender como ele espera que seus seguidores o representem na cidade, na comunidade rural, na Amazônia e até no planeta.

Como ser discípulo/a de Jesus, festejar seu aniversário hoje, nesta sociedade tão desigual, injusta e ameaçando a destruição do planeta terra? Uma sociedade que é semelhante ou mais injusta que a sociedade do tempo de Jesus na Palestina, como? Por isso que este tempo de natal é propício a que cada um, cada uma de nós se pergunte, que presente vou oferecer ao aniversariante no dia 25? Uma lágrima? Uma oração? Um Noite Feliz dorme em paz? Ou será que estamos em condição de dizer a ele: conte comigo, se seguir seu caminho especificado nas Bem aventuranças de Mateus, é uma cruz pesada, mas vou tentar tomá-la e te seguir para que possa contribuir para mudar a cruel realidade de nossa sociedade. Vamos arriscar mais Feliz Natal a você…

Mineração e hidroelétricas na Amazônia

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Painel Integrado sobre Hidroelétricas e Mineradoras no Oeste do Pará

Oriximiná – 18 de dezembro de 2015 – exposição do Pe. Edilberto Sena

Promoção da Rádio Sucesso – Junior Canto

  1. A Amazônia é o eldorado para o sistema capitalista mundial. Porque aqui estão as riquezas de que o mercado internacional mais carece: minérios, recursos hídricos e terra abundante para o agronegócio. Ao mesmo tempo, o Brasil é um mercado emergente, potência regional que tenta se firmar no comércio internacional exportando produtos primários do extrativismo. Seu celeiro de produtos desejados pelo mercado internacional está na colônia Amazônia. Segundo o jornalista e pesquisador Lúcio Flávio Pinto, No Pará, o peso das exportações se concentra nos produtos de origem mineral, que geram 90% da pauta de exportações do Estado. O mais grave dessa atividade é que os minérios são exportados in natura, ou semi elaborados. Isso deixa um prejuízo ainda maior pela isenção do ICMS facilitado pela lei Kandir.
  2. Eis porque O Oeste do Pará é hoje uma das prioridades do governo federal para investimento de infraestrutura (portos, hidroelétricas, estradas, etc) necessária para garantir o escoamento das riquezas comerciáveis. Nesta visão economicista do governo brasileiro, os moradores da Amazônia (e aqui se incluem os indígenas, quilombolas, pescadores, moradores da cidade de Oriximiná) são meros obstáculos a esse crescimento econômico, o PAC.
  3. Assim se explicam, tanto o projeto hidroelétrico da cachoeira porteira, quando a intensa exploração de bauxita da Mineração Rio do Norte, como também da LCOA em Juruti. No caso da Cachoeira Porteira, se energia elétrica fosse apenas um serviço justo e necessário à população, não haveria necessidade daquele projeto, pois aqui está o novo linhão de Tucuruí. Afinal, este linhão vem da atual segunda maior hidroelétrica do país. Por que chegou só agora esse linhão aqui? E por que não foi estendido aos municípios de Alenquer, Curuá, Monte Alegre e Prainha que continuam queimando óleo diesel para ter eletricidade? Vocês acham que esse linhão chegou aqui por causa de vocês? E como chegou esse linhão por que então a Eletronorte continua insistindo em construir a barragem de Cachoeira Porteira?
  4. Vamos analisar o caso da exploração de bauxita pela Mineração Rio do Norte – Esta multinacional explora bauxita desde 1979 ( o que muitos aqui se lembram). Seus sócios são, que se saiba até hoje: BHP Billiton, Alcan, CBA(10%), Alcoa(18,2%), Alcoa World Alumina (antiga Reynolds), Norsk Hydro(45%), Rio Tinto(12%) e Abalco. A VALE também fazia parte até bem pouco mas vendeu seus 40% para a Hydro, que já tinha 5%. Como se nota, apenas um pequeno sócio, a CBA é nacional. A exportação de bauxita de Oriximiná pela MRN chega a mais ou menos 18 milhões de toneladas de minério por ano, o que permite o Brasil se tornar um dos principais produtores e exportadores de bauxita do mundo.Já a cidade de Oriximiná são os moradores que podem dizer melhor o que tem direito e lhes falta em termos de qualidade de vida. Quando se sabe quantos bilhões de reais já foram lucrados pelas empresas estrangeiras que compõem a Mineração Rio do Norte, nos últimos 36 anos, isso deixa certamente um gosto amargo e revoltante nos filhos da terra. Certamente que os gerentes da multinacional se defendem dizendo que fazem seu trabalho dentro da lei nacional, que pagam royalties ao município. Infelizmente não consegui saber quanto a MRN paga por mês de royalty ao município e como esse recurso é aplicado pela prefeitura. Talvez o prefeito possa dar um esclarecimento ao público aqui presente e que nos ouve pela rádio.
  5. O que fica de saldo para o município de Oriximiná e a cidade em si? Vamos comparar as melhorias de qualidade de vida entre a vila Porto Trombetas e a cidade. A vila que abriga cerca de 6 mil trabalhadores e famílias do consórcio tem pavimentação das ruas e construção de redes de água potável e de esgotos. Há um hospital com 32 leitos, unidade de terapia intensiva, serviço de laboratório de análises clínicas e centro odontológico. Há ainda em Porto Trombetas facilidades como supermercado, dois hotéis, sistema de comunicação nacional e internacional via satélite e cinco canais de televisão. Outro detalhe humilhante para os moradores da idade, Porto Trombetas possui um aeroporto capacitado para receber linhas aéreas nacionais.

Já os miradores da zona rural talvez tenham sido os mais prejudicados pela implantação da MRN. Segundo as pesquisadoras Rosa Acevedo e Edna Castro do Núcleo de altos estudos da Amazônia, NAEA, foram várias as desterritorializações sofridas pelos quilombolas desde o início da exploração mineral. A primeira aconteceu quando 90 famílias fizeram um ‘acordo’ com a mineradora para saírem de seu território, recebendo em troca ínfima indenização. Somado aos 65.552 hectares de terras concedidos pelo governo federal, a MRN adquiriu uma posse de 400 hectares, mediante pagamento aos quilombolas e

solicitou mais 87.258 hectares ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em 1977. Esta posse

No que diz respeito à economia local, a mineração promoveu certa dinamização, mas não incluiu as comunidades rurais. Elas, além de não terem sido integradas como mão de obra na empresa, de não conseguirem vender sua produção extrativista e agrícola, também vêm perdendo continuamente

parte de sua principal fonte de renda – a extração da castanha-do-pará.

Certamente, algumas conquistas foram feitas pela luta dos quilombolas, que parecem mais organizados e exigentes do que os moradores da cidade, me corrijam se estiver errado na análise.

 

  1. Por fim, será que esta triste conjuntura pode ser modificada para que os povos tradicionais da região possam usufruir um padrão de vida digno devido as riquezas que são exploradas aqui? Não está fácil com a democracia que temos a níveis, nacional, estadual e municipal. Mais ainda com o baixo nível de consciência cidadã da maioria de nossas populações. A servido voluntária e conformista são as principais razões de nossa Amazônia ser colônia saqueada pelas empresas nacionais e estrangeiras e pelo falso projeto desenvolvimentista do governo federal que nos trata como obstáculos ao crescimento econômico em vez de nos tratarem como cidadãos com dignidade. Para mim, se Mahatma Gandhi conseguiu mudara sorte de seu povo na Índia, se Nelson Mandela conseguiu mudar a sorte de seu povo na África do Sul, nós podemos um dia mudar a sorte dos povos de Oriximiná e da Amazônia. Por isso aceitei participar deste evento para provocar seus brios e consciência. Chega de sermos escravos da política politiqueira, da exploração por estrangeiros e por governos submissos ao capital.

Crimes de omissão são graves

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Conjuntura sócio política de Santarém – 14.12.2015

Os crimes de omissão

 

Toda omissão é uma forma de consentimento sobre o ilícito. Pode ser por negligência, covardia, ou mesmo participação no crime. A situação da cidade de Santarém é de crimes e omissões. Há crimes sendo cometidos contra o território, contra famílias pobres que vivem em bairros sem documento de propriedade por que o poder público se omite e não procura legalizar as propriedades. O patrimônio urbano é sonegado aos pobres e entregue às empresas que chegam se instalam ganham seus lucros, sem desenvolver a cidade.

Exemplos se multiplicam. A multinacional Cargill chegou no ano 2.000 ocupou área nobre na praia da Vera Paz. Mesmo tendo sido processada pelo Ministério Público Federal, recebeu apoio do Estado do Pará e da prefeitura de Santarém, inclusive por parte dos vereadores de então. Mais recente, a direção das Docas do Para, órgão federal) expulsou os ocupantes do campo da Vera Paz, com a potoca de que seria para pesquisa de arqueologia, hoje é alugado para a Cargill ampliar seus armazéns e ganhar mais dinheiro. Quanto entra nos cofres da prefeitura? Em seguida empresas de transporte de contêineres invadiram as praias da grande Prainha e construíram seus portos privados. Os poderes públicos nada contestam,  se omitem de defender o direito ao território da cidade.

Agora mais recente, novo escândalo de invasão de território e omissão de prefeito e maioria de vereadores. Os projetos de três grandes portos graneleiros e um terminal ferroviário na periferia da cidade, em cima de uma área municipal de preservação ambiental. Para que serve a Secretaria de maio ambiente municipal? Para pagar salários a um grupo de funcionários só? O  secretário e o prefeito se defenderem dizendo que a licença ambiental é de responsabilidade do Estado é omissão pura. Enquanto a prefeitura não legalizou os terrenos de mais de mil famílias que habitam os bairros do entorno do lago do Maicá, a empresa EMBRAPS sem cerimônia coloca placas em vasta área ali avisando que é área privada e ninguém pode entrar. Informações dão conta que para satisfazer os interesses das empresas graneleiras, a prefeitura se comprometeu a abrir uma grande avenida asfaltada para tráfego de carretas em quatro pistas, cortando sete bairros  da periferia da cidade além de várias comunidades rurais de acesso. Para essa obra serão destruídas casas e ao menos uma escola municipal. Para onde irão os moradores? Quem vai indenizar suas casas destruídas? Não se fala,  a prefeitura se omite.

 

Enquanto isso, mais uma empresa imobiliária, a Buriti destruiu 187 hectares de mata nativa ao longo da rodovia Fernando Guilhon e a SEMMA disse que aquilo era um problema da SEMA estadual, o município não tem nada a ver, mesmo tendo ocorrido dentro da área urbana de Santarém. É uma atitude semelhante a de Adão que diante do crime no paraíso, disse a Deus que o problema foi da Eva. Crimes de omissão, ou quem sabe? Crimes de participação.

Santarém a pérola do Tapajós está entregue a quem desejar ocupar espaços para suas empresas, menos para os moradores da cidade. Nunca antes nesse município as autoridades foram tão omissas diante das violações de território e dignidade de seus moradores. Mas aqui chega um agravante. As famílias tradicionais, os filhos desta cidade, os migrantes que vieram para cá porque era uma cidade bonita, pacífica, estão vendo a destruição de seus espaços urbanos, vendo a invasão de empresas se apossando das áreas para seus empreendimentos, com prejuízos para os moradores e não reagem, com raras exceções. Enterram as cabeças na areia e fazem de conta que não veem. Outro crime de omissão coletiva. Nossos antepassados nos deixarem o teatro Vitória, o Museu João Fona, o igarapé do Irurá, a coroa de areia e tantas outras heranças preciosas. O que a atual geração deixa para as futuras gerações? As cantigas saudosas como Teu luar Vera Paz, saudade da gente traz… Que saudade a gente sente, quando está da terra ausente… quando olha o passado da terra da gente…

 

Os crimes de omissão são tão perversos quanto os crimes de agressão.

Declaração dos Direitos Humanos em quem confiar?

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ANÁLISE DA SEMANA PARA NOSSA VOZ É NOSSA VIDA – 06.12.2015

No dia 10 d dezembro de 1948, após vários genocídios provocados pelas duas grandes guerras mundiais, alguns chefes de Estado, ainda com as mãos e as consciências manchadas de sangues e de vidas exterminadas, se reuniram  e elaboraram a Declaração Universal dos direitos humanos. Mesmo sem valor legal, 30 direitos foram declarados, como para todos os seres humanos no planeta. Pela declaração universal não deveria mais haver guerras, nem dominações de um povo contra outro povo. Para prova do cinismo dos tais chefes de Estado, já em 1950 começou a guerra da Coreia que durou 3 anos, com 4 milhões de mortos e o envolvimento das duas grandes potências (USA e URSS). Neste mesmo período estourou  a guerra civil no Vietnam com a participação da França. Derrotados os franceses em 1954, já em 1964 entram os norte americanos em nova guerra com os vietnamitas do norte. E assim por diante, os países continuaram a matar e se matar até hoje, na Síria, Iraque,  no Congo, na Nigéria e outros países.

No próximo dia 10, quinta feira  a declaração universal dos direitos humanos completará 67 anos. Durante esse tempo, o conteúdo da Declaração tem sido violado e violentado centenas de vezes, como já foi ilustrado com algumas guerras de antes e de hoje, com milhares de mortos e milhões de  famílias que tiveram que abandonar suas casas, suas terras e seus países para escapar da morte. Mas não só as guerras, outros direitos humanos tem sido violados, também no Brasil: direitos à educação, direitos ao território dos indígenas (agora mesmo o governo federal tenta passar nova lei de invasão de território indígena para fins de mineração e hidroelétricas); direito à moradia (só em Santarém são 20 mil famílias, que não possuem casa própria, vivem de aluguel, de agregado, ou de ocupações de terrenos vazios).

Olhando por esse lado, não se tem o que comemorar neste aniversário da declaração universal dos direitos humanos. Mas olhando por outro lado, podemos perceber que alguns avanços tem havido nas consciências dos movimentos populares, da Igreja Cristã e de algumas organizações não governamentais. Agora mesmo jovens estudantes em São Paulo fizeram pressão sobre a idiotice do governador deles, que queria impor mudanças estranhas na educação estadual. Os jovens bloquearam as escolas, pararam as aulas, foram às ruas, apanharam da polícia, mas nestes dias o governador paulista recuou de sua ideia torta e os direitos dos estudantes foram respeitados.

Em Santarém tem havido também avanços na consciência de moradores, dos sem teto, dos que exigem respeito ao território da cidade. Mesmo que o prefeito, vereadores e alguns empresários estejam violando os direitos dos cidadãos, permitindo projetos como o tal minha casa minha vida, uma indignação contra os pobres; também permitindo e favorecendo a destruição da área de proteção ambiental do lago do Maicá, que vai expulsar centenas de moradores para construção da via de acesso a mais de 600 carretas com grãos. Enquanto as autoridades apoiam tais absurdos as associações de moradores de sete bairros ameaçados por tais projetos estão resistindo e buscando apoio do Ministério Público estadual. Como afirmou uma professora, os direitos não se conquistam dentro de gabinetes, mas com pressão popular. Já estão desmascarando a farsa de um EIA RIMA de meia tigela.

Outro avanço na busca de respeito aos direitos humanos é o caso do Movimento de trabalhadores em luta por moradia, ali ao longo da rodovia Fernando Guilhon. Novamente, enquanto as autoridades desprezam os direitos dos pobres eles pressionam, buscam apoio de outras autoridades mais fieis à declaração universal e resistem à expulsão da área. São mais de 600 famílias já morando em seus barracos, organizados em quadras, rua, e áreas coletivas. Aguardam decisão  do desembargo em Belém. E assim os lutadores em defesa do igarapé do Urumari, os Lutadores contra o lixão a céu aberto na comunidade Perema. Todos são sinais positivos de conquista de direitos, que mesmo tendo sido declarados há 67 anos, continuam sendo ameaçados pelos que buscam lucro e dominação.

Se a COP21 fosse em Manaus…

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Análise breve sobre a Amazônia à luza da CPO21 – 03.12.2015

Se o encontro dos chefes de Estado do Mundo, nestes dias reunidos em Paris, estivessem reunidos em Manaus, La Paz, ou Suriname qual seria a diferença? Será que as decisões seriam diferentes em relação ao cuidado com o planeta? Imagine Obama, Holande, Cameron, Dilma, Correa, mirando a cobertura de fumaça, cobrindo o rio Amazonas, a seca extraordinária provocando queima de floresta pan Amazônica, será que teriam mais consciência do limite da mãe natureza?

Só na Amazônia brasileira, de acordo com o Instituto Nacional de pesquisa amazônica, IMPA em Manaus, indica que mais de seis mil quilômetros quadrados de floresta foram destruídos  de agosto de 2014 a julho de 2015. Certamente que lá em Paris todos os chefes de Estado já sabem do desastre com o rompimento da barragem de lixo da mineradora em Minas Gerais, que além de destruir o habitat de  cinco mil famílias ao redor da barragem, aniquilou todo um rio e sua biodiversidade. E os conflitos hoje acontecendo entre as empresas mineradoras no Peru e as petroleiras na Amazônia equatoriana, será que tudo isso sensibilizará os senhores do mundo em Paris?

Para muitos, a Amazônia, que cobre nove países da América do Sul, é ponto essencial para o equilíbrio do clima e salvação do planeta. Mas como exigir que a China deixe de comprar ferro da multinacional brasileira VALE? E como exigir que Correa deixe de destruir a floresta amazônica para extrair petróleo, contra a vontade dos indígenas?

O Papa Francisco já deu um alerta – “ou se tomam decisões sérias e concretas para conter as agressões à natureza, ou será nosso suicídio coletivo”. Mas será que se pode esperar decisões sérias dos chefes de Estado em Paris? Mesmo imaginando que Putin, Obama, Merkel, Chin Chiang tivessem boa vontade, mas eles cumprem ordens do sistema. E o sistema exige matérias primas para alimentar o consumismo  do capital. Afinal a busca desenfreada de lucro, a necessidade urgente de crescimento econômico dos países progressistas da América do Sul não podem frear a destruição da natureza. Basta observar as contradições do presidente Correa, da presidente Dilma e do presidente Evo Morales para atender as necessidades primárias de seus povos. Assim eles justificam as explorações de minérios, de madeira e do agronegócio. Ou será que há outra explicação razoável para tantas hidroelétricas em construção e em projetos no Peru, na Colômbia, Brasil e Bolívia?

Por tudo isso e mais é que não se pode ter muitas esperanças da COP 21, como não se teve da COP20, da 19, da 18, etc. Deus não destruirá o mundo, pois ele o criou bem organizado, como anuncia o livro do Gênese. Mas os chefes de Estado do mundo são capazes de destruir o planeta ou permitir que os insensatos os destruam como já estão destruindo.