Cargill na berlinda mais uma vez

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Avaliação da entrevista realizada na sede da CARGILL Santarém

a convite da direção no dia 08.03.2016

  1. Essa visita foi motivada por uma mensagem que eles enviaram, falando de um ato de “responsabilidade social” que fizeram recentemente, ao doar equipamentos para uma padaria comunitária na comunidade São Francisco da Volta Grande (na Br 163 próximo a Belterra). Estranhei a gentileza da mensagem e respondi com duas indagações  novas:
  2. Qual a preocupação  concreta da CARGILL  com as vidas humanas dos moradores das comunidades, de São Francisco da Volta Grande, de Tabocal, São José, Cipoal, também dos bairros de Cambuquira, Matinha e Esperança, onde não há nenhuma proteção aos pedestres como lombadas, pardal, etc
  3. Quanto é que a empresa CARGILL deixa nos cofres da prefeitura de Santarém por mês de impostos.
  4. Eles responderam que essas e outras questões estão dispostos a responder,  mas numa visita lá no escritório deles. Topei a parada, porém algumas amigas ponderaram que eu não deveria ir sozinho, pois não se sabe o que esse povo tem na cabeça. Marcamos dia e hora, levei um gravador e uma “guarda costa” de peso,  a Amanda Mota, única que se dispôs a me acompanhar. Ela é acadêmica de engenharia das águas na Universidade Federal do Oeste do Pará, UFOPA e levou uma pergunta sobre a questão ambiental. A entrevista foi cordial e durou 90 minutos. Presentes deles estavam: Ronaldo Donath gerente; Ricardo ? setor regional; Valéria ? fundação Cargill, Katiane de Jesus Relações públicas.

Vou apresentar esse relato em dois blocos, um de informações que conseguimos e podem ser úteis para nossas análises, e outro de avaliação de como percebi o que está por trás das palavras.

  1. A. informações  úteis:
  • Atualmente entram e saem – 4 carretas por hora nos armazéns da empresa, sem contar as barcaças. Multiplica isso por 20 horas de trabalho/a e se terá em torno de 80 carretas vindo e retornando diariamente dos armazéns. Eles disseram que carretas descarregam também de noite.
  • Pelo rio chegam as barcaças. São 12 barcaças, não ficou claro se por dia, ou por semana ou por mês. As barcaças que chegam no inverno (quando os rios estão cheios) trazem 2.500 toneladas cada e durante o verão, elas trazem 1.500 toneladas cada, devido a seca do rio Madeira por onde elas vem.
  • A empresa emprega hoje 400 funcionários fixos e mais 50 terceirizados. Sua folha de pagamentos chega a R$ 600.000,00.
  • Hoje são 190 plantadores de soja da região cadastrados e que vendem produtos à empresa; Da exportação de soja e milho a empresa compra 5% (150 mil toneladas) da região e 95% do Mato Grosso (isto dá 2 milhões  e 700 mil toneladas vindas do Mato Grosso), portanto 3 milhões de toneladas é sua exportação  atual. Eles pagam cerca de R$ 2.000,00 por tonelada ao produtor local
  • Questionados pela Amanda sobre a possível poluição com água de lastro no porto de Santarém, dizem que a água de lastro não está afetando o tapajós porque é tudo bem fiscalizado, os navios são obrigados a despejar a água de lastro antes de entrar em águas brasileiras e cada navio é fiscalizado em Macapá para  ver se tem água de outro oceano. A água que escorre em Santarém durante o carregamento do navio é água nacional fiscalizada. Valéria salientou que a empresa faz parte de uma tal coalizão Clima-Floresta – Agricultura, organização que supostamente zela pela pureza e certificação da produção de grãos.

* Quanto a questão da incidência de câncer na região pelo uso de agrotóxicos nas plantações de soja e milho, responderam que desconhecem essa incidência e o diretor Ronaldo  chegou a dizer que já cultivou soja no mato Grosso por 20anos e nunca ouviu falar de incidência de câncer na região causado por agrotóxico.

  1. Minha avaliação  sobre as informações –
  2. Ao sentar à mesa da conversa pedi licença para usar o gravador “a fim de ser fiel ao que fosse questionado e respondido”… Súbito,  olharam entre si e depois de breve silêncio, sorrindo concordaram e assim foi. Isto me deu possibilidade de fazer este relato fiel. Notei que havia uma gentileza simpática, mas curiosa deles.
  3. As duas questões básicas de minha provocação original foram respondidas ao modo deles que compreendi assim:
  • Cuidado com as vidas ao longo da Br 163 com lombadas, pardal e sonoras nas comunidades por onde passam as carretas,

eles desviaram o assunto e não responderam. Apenas Ronaldo afirmou que desde 2012 nenhuma carreta causou acidente “dentro da cidade” sic. Perguntado sobre o porquê de estarem instalados “pardal” e redução de velocidade justamente entre o final de linha, o porto da Cargill e o viaduto, quando as comunidades dos bairros desde a descida da serra de Piquiatuba até a rodoviária (200 metros além do viaduto) haviam solicitado e pressionado para terem proteção às vidas, sua resposta foi graciosa e “ingênua” –

disse o diretor Ronaldo -“não sabia que havia pardal no trecho mencionado… talvez tenha sido o Ministério Público Federal que tenha exigido devido a seu escritório estar no perímetro…” Quase cômica resposta. Afinal, ele deve transitar pela avenida Cuiabá constantemente. Também, com a maior seriedade, garantiu que “todas as carretas são extremamente fiscalizadas e disciplinadas”. Como podem ser tão rigorosos e obedecidos se são 4 carretas por hora entrando e saindo do porto? Tal resposta para fazer boi dormir.

  • Sobre a questão de quanto de imposto a Cargill contribui aos cofres do município por mês.

Não responderam. Deram uma justificativa que a Cargill contribui de vários modos: os salários dos 450 funcionários são gastos na cidade e isso gera renda ao município; a compra da produção de soja dos produtores locais é gasta em parte no município e gera renda, etc. Quando lembrei que numa pesquisa que fiz em 2014, descobri que a contribuição em ISS, único pagamento da empresa direto à prefeitura foi em dez anos apenas um milhão de reais, o que veio a dar em média, 8,500 reais/mês, eles não disseram quanto isso é hoje, mesmo já tendo duplicado a exportação de soja.

  • Questionei sobre a falta de preocupação da empresa com o uso de agrotóxicos na região, por conta da chegada da soja, que aqui chegou estimulada pelo porto da Cargill.

Falei da comprovação de 10 casos de câncer na comunidade Boa Esperança, onde há concentração de plantio de soja, a resposta do gerente Ronaldo foi: “morei 20 anos no Mato Grosso, no meio da soja e nunca vi um caso de doente de câncer”. Deve ser um milagre no MT. Em outras palavras, para eles o uso de agrotóxico não é grave, pois está vigiado pela EMATER e pela tecnologia. Isto é, o que está acontecendo aqui na região não deve ser por causa da soja…

  • Valéria mudou de assunto e me perguntou se eu notava avanço de mudança da Cargill hoje comparada com 10 anos atrás.

Minha resposta foi “mudou sim para pior. Se vocês ampliaram os armazéns, duplicaram o número de carretas entrando e saindo pela única via de acesso, a Br 163, como pensar que cuidaram mais da defesa da vida dos moradores da região? como querem nos fazer crer que melhorou o ambiente nos bairros do entorno do porto? Além disso, como a empresa ampliou fortemente a exportação de seus produtos, de que forma ampliou a qualidade de vida dos moradores do município? Vocês podem se iludir por terem dado equipamentos para uma pequena padaria comunitária, uma biblioteca pequena à cidade, mas não confere os danos sociais e ambientais que trazem para nossa população. Basta ver a destruição do sitio arqueológico da Vera Paz, como exemplo e o descuido em exigir lombadas e pardais ao longo da rodovia. Dizem que não é responsabilidade de vocês, mas é seu o maior benefício.

  • Em resumo, o progresso está entrando francamente na cidade e na região, e com ele os impactos negativos, como desmatamento continuado, ameaças às vidas de pedestres, o aumento de agrotóxicos nas plantações, etc. Quanto ao desenvolvimento real é muito pouco ou quase nada. A Cargill, como os outros projetos portuários e imobiliários, são atraso ao desenvolvimento de Santarém. E o mais triste é que a população se cala, os prefeitos e políticos aplaudem.
  • De que valeu a nossa visita à multinacional Cargill? Valeu para termos informações mesmo incompletas, ou escapistas, mas que nos permitem uma avaliação mais objetiva desse tempo de progresso que veio e está vindo à Pérola do Tapajós, literalmente entregue aos porcos.  O IDH do município continua da mal a pior.
  • Entrevistadores:

– Amanda Mota, acadêmica de engenharia das águas UFOPA;

– Edilberto Sena – Movimento Tapajós Vivo e Comissão Justiça e PAZ da Diocese de Santarém.

 

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