Povos do rio Tapajós resistem aos projetos hidroelétricos

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Povos do rio Tapajós resistem aos projetos hidroelétricos

Edilberto Sena

Movimento Tapajós Vivo

Santarém, Pará – julho 2016

O rio Tapajós  é vida para mais de um milhão de brasileiros/as. Não só para estes povos, mas  também para a rica biodiversidade da Amazônia. A bacia hidrográfica é composta de vários igarapés e rios, entre os quais se destacam, Jamanxin, Teles Pires e Juruena. Para os povos que habitam esta bacia hidrográfica o rio é estrada, cozinha, banheiro e paisagem paradisíaca.

Hoje existe ali uma guerra de baixa intensidade. De um lado, o governo federal comprometido com o PAC, programa de aceleração do crescimento econômico do país. Do outro lado, os povos do oposto PAC, programa dos ameaçados pelas construções faraônicas.

O PAC do governo federal visa o rio Tapajós, como gerador de energia elétrica, que seus funcionários chamam de energia limpa, uma falácia para iludir ingênuos. Afinal, hidroelétrica gera energia limpa lá na ponta, mas aqui na fonte gera impactos irreversíveis, como bem ilustram as usinas de Jirau, Belo Monte e outras já funcionando. O perverso PAC do governo prevê 43 grandes e médias barragens na bacia do Tapajós. A mais próxima de Itaituba que mais assusta os povos tradicionais do  da região, é a de chamada de São Luiz do Tapajós. Terá barreira de 7 quilômetros fechando o rio, gerando imenso lago de 732 quilômetros quadrados rio acima, metade dele inundando florestas, invadindo a estrada Transamazônica, alagando 10 mil hectares do Parque Nacional da Amazônia. 150 famílias da comunidade Pimental, entre outras,  serão expulsas de suas raízes porque o local será inundado.

No verão passado o Tapajós secou tanto que o encontro das águas em frente a cidade de Santarém, cantado em versos e músicas, foi empurrado cinco quilômetros rio acima da cidade. Uma das causas de tamanha seca foi uma barragem já construída no rio Teles Pires, que diminui o fluxo das águas no rio Tapajós. O rio Amazonas invadiu  além da cota ordinária.

Do outro lado deste campo de guerra, estão os e as militantes de vários grupos e movimentos sociais da região. São os que resistem a todo custo, a essa perversidade do sistema. São ribeirinhos, Munduruku,  Movimento dos atingidos por Barragens, MAB, Movimento Tapajós Vivo de Santarém e Itaituba, MTV,  beraderios, Pastorais sociais das igrejas e sindicatos de trabalhadores rurais. São os que estão comprometidos com a Casa Comum, nosso rio e nossa vida.

Nesta guerra ainda de baixa intensidade, os agressores ligados ao governo já usaram helicópteros, força nacional e empresas pagas para iludir os ribeirinhos com promessas de compensações. Também  utilizam o apoio   da justiça federal, que justifica uso da suspensão de segurança, uma excrecência da ditadura militar, para justificar a necessidade de destruir rios e populações a fim de acelerar o crescimento econômico.

Do lado de cá desse front, os militantes da resistência trabalham com formação da consciência cidadã de moradores das comunidades ribeirinhas e urbanas. Sem armas  de fogo, usam a formação de novos militantes, porque confiam que quanto mais moradores se unirem, serão capazes de enfrentar as armas do governo. Com cartilhas, vídeos e testemunhos de quem já sofreu impactos em outras barragens vão formando grupos, discutindo formas de enfrentamento.

Pouco a pouco vai crescendo a resistência. Hoje o povo Munduruku  está na frente com sua própria organização. Já construiu seu Protocolo de Consultas, como requer a convenção 169 de Organização Internacional do Trabalho, OIT. Suas lideranças já foram a Brasília e disseram ao Ministro como eles querem a consulta, que não é a forma pretendida pelo governo. Outro grupo, o Movimento Tapajós Vivo MTV, em Santarém e Itaituba tem realizado vários estudos e seminários de formação, tendo como espelho os impactos das hidroelétricas de Santo Antônio no rio Madeira e Belo Monte no rio Xingu ilustrando as mentiras do governo, que promete desenvolvimento mas deixa desgraças para os povos da região.

Dentro da estratégia de resistência, o MTV e vários grupos estão preparando a segunda Caravana em defesa dos povos e do rio Tapajós. Vai acontecer na cidade de Itaituba de 26 a 28 de agosto. Cerca de mil participantes estão sendo esperados do alto, do médio e do baixo Tapajós, do Mato Grosso, do Xingu, das cidades tapajônicas. Haverá mesas de diálogos, testemunhos de resistência já em andamento, atividades auto gestionadas. Ao final do encontro deverá ser construído um documento acordo de todas as organizações lutadoras presentes a formar uma estratégia comum de enfrentamento aos projetos barragens no Tapajós. Também uma carta dirigida ao Papa Francisco deverá ser assinada por várias organizações presentes convidando o papa a visitar o Tapajós em sua vinda ao Brasil no próximo ano.

As lideranças sabem que essa guerra é desigual,  mas sabem também que convicções, e unidade na luta podem vencer o monstro do capital.

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