As senzalas de hoje piores do que as da Colônia

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Análise da semana – 08.01.2017

Há um assunto de grande repercussão nestes dias – as tragédias dos presídios de Manaus e Boa Vista. Possivelmente alguns dos mortos eram de Santarém e do Baixo Amazonas. Os comentários são vários, as acusações são diversas.

Há quem bata palmas às chacinas e diga que se matem mais pois são todos criminosos. Criminoso bom, dizem, é criminoso morto. Foram 60 aqui, 30 ali, que se matem mais. Há outros que acusam o Estado por permitir superlotação de presídios. Também o Estado do Amazonas acusa o governo federal de cortar verba, este acusa o governador  de terceirizar os cuidados dos presídios. Assim, um acusa o outro  e todos se sentem sem culpa.

Provavelmente, depois de umas semanas das tragédias tudo voltará como antes. A não ser que as facções criminosas que estão bem organizadas continuem a protagonizar mais chacinas em outros presídios superlotados em Santarém, Belém, no nordeste e no sul. Afinal, os barris de pólvora estão cheios. O presídio de Manaus, que tinha capacidade para 550 prisioneiros, estava com 1 mil 250 pessoas. O presídio Silvio Hall de Moura em Santarém, com capacidade para 360 pessoas, está com mais de 650 prisioneiros, uns por carregarem 10 petecas de drogas, outros por espancarem esposas e outros por assassinato.

Quem de fato se preocupa com os presidiários? O município? O Estado? O delegado? O juiz? Quem? Nós da sociedade civil, que temos boas famílias que não cometemos infrações? Os presídios são senzalas mais humilhantes do que as senzalas dos escravos do tempo da colônia. No presídio de Cucurunã aqui, há um dito pavilhão, que é um barracão grande quente, coberto de brasilit e lá dentro os presos são agasalhados em “quartos” separados apenas por panos em forma de parede. Lá estão amontoados, uns acusados e ainda não apenados, por suposta agressão a uma adolescente. Ele se garante que é inocente, mas não teve advogado para defendê-lo. Está lá cumprindo pena, junto com outros de crimes mais graves.

Os presídios que deveriam ser casas  de reeducação para o retorno à sociedade, são hoje escolas de mais criminosos, como são as facções do PCC, do MC e outros. Isso quando não morrem nas chacinas. Dizer que os 90 hoje mortos brutalmente mereciam morrer é hipocrisia. Porém, tudo indica que boa parte da sociedade que já teve alguém prejudicado por um infrator, ou que vive com medo de perder seus bens, deve estar aplaudindo as chacinas de Manaus e Boa Vista.

Provavelmente, dentro de mais algumas semanas se esquecerá do que aconteceu, a vida continua  sem mais preocupação com os presídios. Os governos vão se contentar em transfer presos mais perigosos para outros ditos presídios de segurança máxima. Eles no entanto,  estão muito bem equipados com serviços de comunicação, com armas e com seus discípulos. Um dos líderes já avisou que a guerra vai continuar, porque a sociedade hipócrita  está conformada com a grande desigualdade social. O governo federal está ampliando a escola da criminalidade com os cortes de recursos públicos cortado dos pobres para atender os Bancos e o agronegócio.

E os juízes que vão  fazer  para mudar essa conjuntura? Vão trabalhar mais para separar as infrações menores dos crimes mais graves? Ou vão continuar a simplesmente mandar aos presídios vendedores de petecas de drogas e ladrões de supermercados?

Já dizia o grande brasileiro Darci Ribeiro: ou os governos constroem mais escolas e pagam dignos salários aos educadores, ou irão gastar dinheiro construindo mais presídios. A profecia dele está acontecendo.

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