Mês: maio 2017

No fundo do poço há uma escada

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Editorial RNA – 30.05.2017

Quanto vale uma vida hoje? Depende! Para uma mãe e pai de família com uma criança bem doente, vale arriscar a própria vida para salvá-la. Para um pistoleiro, depende da importância que tem a vítima encomendada, pode ser 50 mil, ou cem ml reais. Para um destacamento de polícia com ordem e despejo, depende da ordem do comandante; Para um dono de agronegócio de soja, ou milho, depende do tamanho do lote e da encomenda de toneladas que deseja vender ao mercado internacional; Para o governo federal, a vida vale menos que o crescimento econômico planejado para o país.

Assim se explica o assassinato de dez posseiros no sul do Pará na semana passada; assim se explica o adolescente que matou a mãe em Santarém, viciado em drogas. Ele uma vítima dos traficantes que ganham dinheiro vendendo a morte ao viciado e a suas vítimas; E assim está o preço de tantas vidas na Amazônia, de agricultores, ribeirinhos, indígenas, moradores de cidades e vilas.

A vida se tornou mercadoria de pouco valor, tanto a vida humana, como a vida da mãe natureza. A terra tem valor se serve para monocultura de eucalipto, dendê e soja. A esta degradação de violência está reduzido este país, dito cristão. Não surpreende que neste mercado da vida, empresários comprem consciências de deputados, senadores, juízes, até do presidente da dita república. A propina se tonou moeda corrente e não se sabe até onde irá essa degradação moral. Mas que é grave não há dúvida. O país e sua população estão no fim do poço e parece não haver escada para sair desse fundo.

Pessimismo? Talvez, mas como na vida e num país cristão o pessimismo não pode destruir todo um povo, tem que haver uma escada para se sair desse poço escuro. Alguns sinais de que o espírito de cidadania está reagindo. As marchas e ocupa Brasília, os povos indígenas bloqueando rodovias, a hierarquia da Igreja Católica tomando posição firme de denúncia fala imoralidade política, os movimentos sociais e sindicais em várias cidades são todos sinais de que no fundo do poço há escada. Mas não basta, é preciso mais articulações, ações e enfrentamentos. Isso,

depende dos que ainda não receberam propina, nem perderam a coragem de reagir e se juntar a outros companheiros/as para sair para um novo dia. Possível e urgente é.

 

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Quem sabe menos das coisas sabe muito mais que eu

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Análise da semana – Nossa Voz é Nossa Vida – 28.05.2017

Uma cantiga popular vai assim: Quem sabe menos das coisas, sabe muito mais que eu… mas agora eu sei o que aconteceu… Pois é, agora eu sei que estão acontecendo tantos absurdos, em Brasília, na Amazônia, em Belterra e Santarém. Sabendo menos do que deveremos. Se a democracia brasileira já era frágil, agora decaiu de vez. O povo brasileiro está como ovelhas sem pastor. Quem manda no país, são empresários corruptores e políticos, em sua maioria, corruptos.

Em Belterra o absurdo da Câmara de Vereadores, sem consultar os eleitores, decidiu desfazer boa parte de uma área de proteção ambiental na margem do rio Tapajós, ideal para cultivo de turismo. Desmembraram para entregar a uma empresa construir um porto de transbordo de produtos. Em troca de quê?

No Estado do Pará, a Polícia militar do governador Simão Jatene, comete mais uma chacina, assassinando 10 trabalhadores rurais na comunidade Pau D’arco. Traiçoeiros, imediatamente após matar retiraram os corpos para evitar a perícia. Alegaram confronto com posseiros armados, porém, enquanto 10 posseiros tombaram mortos, nenhum policial foi ferido. Quem garante que os policiais pagarão com justiça os crimes que fizeram? Quem garante que o chefe da polícia militar Simão Jatene será condenado por mais essa chacina? Será essa a disciplina ensinada aos policiais militares do Pará? Outro absurdo desses crimes no Pará é a declaração do ex delegado de polícia, hoje deputado federal, Eder Mauro afirmando que os mortos eram vagabundos. Essa figura triste representante paraense na Câmara federal revela que tipo de pessoa é. Merece ainda nosso voto?

Em Brasília, se repetem mais absurdos em nossa destruída democracia. Depois das recentes revelações do empresário que manda no país, o presidente ilegítimo Michel Temer, já é carta fora do baralho. Apesar de cinicamente se dizer inocente, seus dias estão contados no cargo. O grande problema é quem vai assumir seu lugar, se quem manda no país são empresários, bancos e a rede Globo.

 Na praça do planalto 120 mil militantes gritando por democracia foram agredidos com bombas, tiros de balas de borracha e até de revolveres de policiais. Para completar, Michel Temer cometeu outro absurdo. Em vez de chamar a polícia militar para proteger seu palácio e prédios públicos, ordenou a entrada do exército para enfrentar a sociedade civil desarmada. No dia seguinte foi obrigado a mandar de volta os soldados para o quartel. Mais uma vergonha nacional.

Que país é esse perguntam, o cantor, os brasileiros e até jornais internacionais. Enquanto milhões de brasileiros nas cidades, em união com os 120 mil na praça do planalto, clamavam por justiça e democracia, deputados e senadores aproveitavam para mais absurdos. Aprovaram de uma vez sete pedidas provisórias que se tornarem leis.

Duas delas atingem em cheio as florestas do Pará. Abrem caminho para grileiros, garimpeiros, madeireiros e para a estrada de ferro Cuiabá Miritituba. Será mais um caminho para acelerar a exportação de soja e milho dos empresários do Mato Grosso. Para isso, não lhes importa que   sejam cortados   598 mil hectares do parque nacional de Jamanxin e da floresta nacional do jamanxin. Será como 598 campos de futebol   emendados de floresta, retirados das duas áreas de proteção ambiental. Tudo isso acontecendo nesses últimos dias. Políticos corrompidos e submissos aos empresários, governo paraense irresponsável, mandando polícia militar enfrentar posseiros com fuzis nas mãos e sem ética na consciência. Em Belterra, seguindo a lógica irresponsável dos políticos nacionais, vereadores violentam uma área de proteção ambiental para servir a empresários locais. Onde fica a moralidade pública?

Mas, salvando a alegria da semana, em Santarém aconteceram dois encontros positivos, os seminários sobre o papel dos cristãos, dos movimentos sociais e das universidades diante da invasão do nosso território. Uma reflexão à luz da carta   do papa Francisco Louvado Seja. Ao menos isso, nessa escuridão sócio política.

 

O túnel está sem luz

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Análise da semana – Nossa Voz é Nossa Vida –  21.05.2017

Neste momento sombrio de nosso Brasil, é mais que necessário se buscar informações confiáveis. Sem elas não se pode ter conhecimento real do que está acontecendo na região e no país. Esse conhecimento objetivo é necessário para que não sejamos manipulados por gente interesseira e oportunista e ao mesmo tempo, possamos assumir compromisso eficiente em defesa da vida e dos direitos de nosso povo. Por isso, muita atenção moradores dos bairros ameaçados pelos projetos de portos da EMBRAPS em Santarém, movimentos sociais, que lutaram contra os crimes da empresa Buriti desmatando 187 hectares de mata nativa ao longo da avenida Fernando Guilhon, e também moradores de Belterra, iludidos pelas autoridades municipais querendo deformar a Área de proteção ambiental Aramanaí.

Importante que cada semana se faça uma análise de conjuntura objetiva, para atender essa necessidade dos e das ouvintes em construir seu próprio conhecimento. Nestes dias, a situação política e social está imoral e confusa lá entre as autoridades políticas. O presidente Michel Temer desmoralizado por um empresário corruptor, faz de conta que não é verdade o que está na gravação, diz que não renuncia, mas seus dias estão contados. No entanto, ficando ou saindo Michel Temer, a situação para os trabalhadores, estudantes e pobres continua ameaçadora. Isto porque por trás dessa imoralidade, há grupos interessados em prejudicar os pobres, aniquilar com os 817 mil indígenas nacionais e destruir a Amazônia.

Aqui na região Oeste do Pará vários acontecimentos estão envolvendo vidas e organizações sociais. Dois estão aqui em análise, um bem positivo e outro nem tanto.

Este é o caso que está ocorrendo nestes dias no município de Belterra. Ali, entre dez vereadores, nove aprovaram um absurdo projeto de desmembrar uma Área de Proteção Ambiental, APA legalmente criada. Agora querem violentá-la, orientados por um prefeito interesseiro. A APA foi criada dez anos atrás, com a intenção de proteger a mata nativa e estimular o turismo nas praias à beira do rio tapajós. Agora, sem consultar as populações rurais e urbanas, as ditas autoridades incompetentes decidiram desmembrar 2 mil hectares bem no meio de APA, a fim de abrir caminho para construção de um porto graneleiro. Parte da população belterrense se revoltou e está reagindo. Nos próximos dias vão realizar uma audiência pública para debater sobre a ilegalidade dos vereadores e prefeito e exigir respeito à lei da APA. Esse é o lado positivo dessa agressão das autoridades. Democracia é governo do povo e para o povo esclarecido.

Em Santarém, a partir de amanhã às 18 horas, iniciarão dois momentos positivos para a sociedade. Segunda e terça feira haverá um seminário aberto ao público interessado. Promoção da Diocese de Santarém lá no auditório da UFOPA na Mendonça Furtado. Serão debatidos assuntos importantes para se compreender o que ocorre hoje no país e que leva a ampliar a desigualdade social.

 

Que país é esse? cantaria o jovem novamente

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Editorial –  RNA

Que país é esse? Uma republiqueta qualquer, sem democracia, comandada por um grupinho de políticos maioria de mãos suja da corrupção. E agora, o presidente de araque está pressionado a sair ou ser mandado embora. Mas, saindo ou ficando o sr Temer, não muda a republiqueta brasileira. A que ponto levaram o país, políticos e outras ditas autoridades, usando e abusando da constituição nacional.

O que está por trás desse ato supostamente heroico da Rede Globo, quando ontem à noite deu notícia sobre toda essa malandragem do sr. Temer, do sr.  Aércio Neves e os corruptores? A rede que vinha direcionando todas as ações do lava jato noutra direção, de repente se tornou paladina da legalidade e da ética. Se a Globo deu essa notícia atingindo uns de seus protegidos, certamente que tem outros interesses agora e Temer fica fora do baralho. Afinal, nesse saco de gatos ninguém é amigo de ninguém, que o diga o antes poderoso Eduardo Cunha, hoje gato silencioso na gaiola.

Se a presidente do Supremo Tribunal Federal esteve reunida há poucos dias com empresários, Banqueiros, e a própria Rede Globo, ela tem seus interesses em jogo. Num país sério uma presidente do Suprema Corte não faz política, protege a constituição nacional. Por que ela não reunião também com as centrais sindicais, com os estudantes e com as vítimas da deformação da Previdência e deformação das leis trabalhistas, os milhões de moradores da Amazônia? Estes e estas ficam de fora das decisões sobre a vida na nação, os 50 milhões clientes do bolsa família, os 30 milhões de universitários, os 800 mil indígenas do país, entre outros.

Acontece que esses marginalizados das decisões arbitrárias do Congresso nacional e governo ilegítimo começam a despertar e dizer não a tanta bandalheira. No último 28 de abril foram 50 milhões ás ruas de 26 capitais gritar Fora Temer. Hoje mais outros milhões estão novamente nas ruas e praças a dizer – queremos eleições novas e diretas, chega de maracutaias. É um novo Brasil que se quer.

 

Índio, indígena ou povo nativo?

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EDITORIAL – RNA – 08.05.2017

Como aceitar que um ministro da justiça do governo brasileiro tenha comportamento anti ético, imoral e racista? Como pode ele ignorar vidas e direitos de brasileiros nativos, que por natureza e ancestralidade, são mais brasileiros do que certos sobrenomes como Serralio, Temer, Mendes e Lavandovsky?

Só mesmo numa ditadura que tal absurdo acontece sem punição.  Observe- se como prevalece hoje esse racismo. Povos indígenas vivem no país divididos em 270 povos, cada um com sua lingua e cultura próprias. São 817 pessoas, maior parte vivendo na Amazônia. São apelidados de índios, mas se identificam como Munduruku, Macuxi, Tucano, Gamela, Guarani e mais centenas de outros povos, cujos os antepassados já viviam aqui antes da invasão dos portuguses. Por direito natural e constituicional são donos dos territórios que ocupam. No entanto, a ditadura atual permite assassinatos de dezenas do povo Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul; permite que fazendeiros e madereiros invadam terras do povo Gamela no  Maranhão; garimpeiros invadam terras do povo Yanomami em Roraima e que o território SawréMaibu, do povo Munduruku do Tapajós continue sem reconhecimento e demarcação. Nesse contexto cruel, só resta aos povos nativos o enfrentamento. Por isso merecem aplausos os guerreiros Munduruku do Tapajós, que bloquearam a rodovia BR 163 em Itaituba (PA), até que a ditadura atendesse uma parte dos seus clamores. Não há outro caminho, senão a resistência ativa e planejada.

Na Amazônia, outros povos nativos precisam seguir  o exemplo dos Munduruku do Tapajós. Povo unido e inteligente de fato, jamais será vencido.

O confronto está armado e muito pode acontecer

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EDITORIAL RNA – 28.04.2017

O confronto está armado em todo o país. A sociedade civil organizada não aceita mais calada os desmandos da ditadura Michel Temer e seus aliados. De um lado está a ditadura abusando dos cargos públicos para impor interesses de bancos, empresas e oligarquia rural. Do outro lado, está o povo nas ruas e nas greves de repúdio e gritando basta de humilhação. Sindicalistas, estudantes, igrejas cristãs, trabalhadores e outros grupos, que já compreenderam a que ponto chegou a arrogância de políticos eleitos representantes de seus eleitores e na realidade, submissos a interesses das oligarquias.

A presença das pessoas nas ruas no dia de hoje, é a certeza de que não se vai mais aceitar a deformação dos direitos eliminados pelas deformações da Previdência social e nas leis trabalhistas, como também no esvaziamento da educação da juventude. Até que ponto chega a arrogância dos políticos, que dois dias antes das marchas nas ruas, 296 deputados federais votaram pela deformação das leis trabalhistas, negando aos trabalhadores direitos a férias, ao décimo terceiro salário, à segurança de vida.

As marchas de hoje em todos os estados brasileiros, incluindo as cidades da Amazônia, deve ser indicativo aos irresponsáveis deputados de que terão seus nomes marcados para nunca mais serem votados em futuras eleições. Ao mesmo tempo as manifestações de hoje são um aviso ao governo Michel Temer, de que ele Não poderá mais insistir em mudar as leis, prejudicando a maioria da população. Terá que respeitar o grito dos brasileiros e não submeter-se aos interesses econômicos de uma minoria rica.

Milhões de cidadãos e cidadãs estiveram e ainda estão nas ruas, enfrentando a polícia que aceita ordens de seus comandantes, mesmo sabendo que também policiais estão sendo sacrificados em nome de uma falsa ordem e progresso.  Esse é o Brasil real.

Os povos da pan amazônia se encontram e se aliam

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EDITORIAL RNA – 04.05.2017

O que foi o oitavo Forum Social Pan amazônico, na cidade de Tarapoto, Amazônia peruana?  Um momento forte de encontro multi étnico dos nove países que compõem a Amazônia. Camponeses, estudantes, militantes dezenas de organizações populares, representantes de vários povos indígenas. Em três dias e meio, mil e trezentas pessoas trocaram experiências de resistência à invasões de seus territórios por petroleiras, mineradoras, madeireiras, projetos hidroelétricos, entre outras agressões às vidas dos povos tradicionais da grande Amazônia.

Invariavelmente seus governos se submetem ao grande capital, permitindo a exploração de suas riquezas, sem melhorar a qualidade de vida de seus cidadãos. O que vai restando são rios poluídos, florestas derrubadas, barragens matando a vida da flora e fauna, além  do envenenamento da terra com agrotóxicos.

Nos dias do Forum os grupos de participantes puderam  partilhar seus sofrimentos, e estratégias de resistência. Uma das riquezas do encontro foi os diversos grupos se sentirem tão próximos uns dos outros, nas lutas e nas esperanças de que outro mundo é sim possível. Bolívia e Peru tão vizinhos da Amazônia brasileira e enfrentando semelhantes monstros como, os projetos hidroelétricos, a exploração de petróleo, e  a ausência de seus governantes para defendê-los. Despois de vários debates  e grupos de estudos dos temas, a plenária do Forum produziu uma carta documento que entre 25 propostas de ação coletiva afirmou que – “o oitavo Forum  se compromete a fortalecer a aliança, articulação e mobilização dos povos da Amazônia e andina. Este compromisso se baseia no respeito à natureza, ao território e à vida”.  E conclui afirmando o compromisso de resistência, levando seriamente em conta, o reconhecimento e respeito à nossa diversidade, convicções, inclusive nossas diferenças”.

Da Amazônia brasileira participaram delegações de Manaus, Porto Velo, Rio Branco do Acre, Santarém, Belém, Macapá e de outros municípios.