Jornalismo objetivo x falsas notícias

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O que está por trás das palavras…

Comissão Justiça e Paz Diocesana – Thiago Rocha e Pe. Edilberto Sena – publicado no jornal IMPACTO de Santarém – 27.04.2018

Nada acontece por acaso.  Pergunta-se, então, o que está por trás das acusações e prisão do pároco de Anapu, Padre Amaro? O Jornal IMPACTO, do dia 20.04.18, estampou uma matéria de bom tamanho, dando a entender que o referido sacerdote seria um criminoso perigoso e, por isso, deveria ser entregue, como o foi, à zelosa polícia, liderada por um muito zeloso delegado, para receber ordem de prisão de um juiz, também muito zeloso, que o mantém preso em Altamira, supostamente para proteger a sociedade de Anapu. Sem fazer muito esforço de raciocínio, também é de se perguntar quem teria fornecido todas as informações que serviram para embasar as denúncias ao delegado? Resposta mais óbvia não há: um grupo de 15 grileiros da região.

Esses indivíduos são os mesmos que, desde os dias da Irmã Dorothy Stang, assassinada por eles e/ou a mando deles, não se conformam com o padre incômodo em seus calcanhares. Irmã Dorothy era também acusada pelos grileiros de ser agitadora e insufladora de invasão de terras de fazendeiros; Padre Amaro, membro da Comissão Pastoral da Terra, seguia a mesma linha evangélica da freira assassinada. Por que, então, eles não mataram também o padre? Ora, os grileiros sabiam que seria perigoso demais mais um cadáver por conta do real problema que aflige aquela área de terras ricas em madeira, minérios e própria também para pastos. Resolveram fazer o que acabam de fazer com o Padre Amaro, denunciam-no de maneira torpe com objetivo de intimidá-lo.

Por que o jornal IMPACTO não se preocupou em colocar o fato dentro da grave situação de conflitos agrários na região de Anapu, sabedor que é de que, naquela região, o INCRA conseguiu criar o Projeto de Desenvolvimento Sustentável, o PDS, sonho de Ir. Dorothy continuado pelo Padre Amaro, que, por lei, o proprietário de cada lote só pode desmatar 20% da área? Por ventura, o Impacto desconhece que o sacerdote preso, seguidor da pastoral da irmã Dorothy e membro da Comissão Pastoral da Terra, cuidava de orientar os posseiros do PDS, para que não se deixassem ser induzidos a vender as madeiras, a derrubar floresta além dos limites e a não permitir a presença dos grileiros que invadiam vários lotes do PDS? Isso é papel de qualquer jornal que pretende informar seus leitores imparcialmente.

No entanto, a notícia veiculada mostra apenas o que fizeram os verdadeiros criminosos, isto é, arrumaram uma falsa lista de acusações para desqualificar o padre que tanto incômodo lhes tem causado.  Até agora, não há fatos comprovados das acusações. Foram os grileiros que entregaram as acusações ao delegado, que imediatamente mandou a polícia prender o padre em plena rua. Não mostra, porém, que, se aqueles arrumaram acusações, o Ministério Público em Anapu solicitou arquivamento do processo por falta de provas, nem sequer faz referência à nota publicada pela CPT a respeito das tensões em Anapu, no dia 13.11.2015, em que já descrevia a situação em Anapu: Esta situação tem se agravado entre julho e a presente data, com o registro de sete assassinatos, já conhecidos da opinião pública. Seis destes assassinatos ocorreram no contexto de um conflito no Lote 83, do qual um dos pretensos donos é Regivaldo Pereira Galvão, o Taradão, condenado como um dos mandantes da morte de Irmã Dorothy Stang, em fevereiro de 2005. Infelizmente, não se pode confiar na Polícia Civil para investigar os casos de homicídio, pois todos os assassinatos até agora foram caracterizados como “crime passional”, “rixa pessoal” ou “discussão”, portanto descaracterizando qualquer ligação com a questão agrária”.

Também não se referiu a nenhuma palavra dita, no dia 18 deste mês, pelo Padre Paulo Joanil, assessor da CPT no Pará, sobre a causa real da prisão e condenação do Padre Amaro, em entrevista nacional: “Trata-se de uma prisão política com o objetivo de tirar da região uma liderança da Igreja, porque ele está atrapalhando os interesses do latifúndio, o qual está invadindo ferozmente os PDS, uma área pública onde estão assentadas várias famílias”.

É possível detectar-se, assim, que a limitação do jovem jornalista do IMPACTO foi construir uma narrativa parcial, sujando a imagem do padre. Isso não é jornalismo profissional. Para sê-lo, deveria investigar todos os lados da questão. Com tal pobreza profissional, leitores e leitoras do referido jornal, poderão ficar convictos de que os grileiros de Anapu são justiceiros honestos e o Padre Amaro, um bandido pervertido. Pode isso?

 

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