Mês: março 2019

Serás liberto pelo direito e a justiça

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Análise da semana  Nossa Voz é Nossa Vida  – 31.03.219

Estamos nos aproximando da semana santa, quando celebraremos a maior prova de amor dada por Jesus de Nazaré. Mais do que a paixão e morte, que foram consequências, foi a sua fidelidade total ao Pai Eterno sobre como amar doando-se totalmente. Isto aconteceu no momento em que ele pediu ao Pai que o afastasse do cálice amargo, mas que fizesse a  sua vontade e não a do filho. Ali, sua fidelidade total à vontade paterna, que era o amor a toda prova. Isto é o que precisamos aprender o que é amar de verdade.

Então, nesta última semana de março, quando ainda lembramos o terrível período da ditadura militar, com tantos assassinados e desaparecidos nos porões da ditadura, tantos crimes que muitos hoje tentam esconder, hoje somos ameaçados  de outra ditadura, que está fermentada por um governo que cria projetos contra trabalhadores e pobres. Uma jovem estudante de jornalismo, acompanhando as contradições do atual governo federal, fez o seguinte comentário: Como é possível hoje alguém ainda apoiar um governo que em três meses de mandato, já manifestou claramente ser contra os trabalhadores e os pobres? Ele insiste em aprovar uma nova lei da previdência que vai tirar direitos sociais aprovados na Constituição de 1988. Tem gente ainda dizendo que ele quer o bem do povo. Como explicar tanta miopia? Será fanatismo? Cegueira, desinformação? Manipulação dos grandes meios de comunicação? Assim pensava a jovem.

Mas nem tudo é desgraça neste país. Aqui na região dois fatos levantam nossa esperança de que o temporal é desastroso,  mas depois virá tempo bom. Um dos sinais de esperança aconteceu na Vila de Curuai. Ali, um grupo de vereadores foi a um encontro com a comunidade. Ouviram várias críticas fortes contra o prefeito, que durante a campanha prometeu governar das periferias para o centro da cidade. Lá no Lago Grande moradores da periferia vivem num abandono total por parte do poder público. Os vereadores, em vez de assumirem seu papel de representantes dos eleitores ficaram chateados e   decidiram requerer que o prefeito demitisse todos os críticos, que eram funcionários do município. Os moradores do Curuai tiverem a consciência de chamar a atenção dos vereadores sobre as omissões do prefeito. Qual deveria ser o papel deles? Em vez de escutar e levar as  reivindicações dos eleitores, preferem ser puxa saco do prefeito e prejudicar aqueles de quem  mais tarde vão pedir votos. Pode?

Outro sinal de esperança aconteceu também no meio da semana. No município de Altamira, a empresa construtora de Belo Monte, Norte Energia encontrou freio para sua lista de enganação de tantos moradores prejudicados pela construção do monstro hidroelétrico. No meio da semana um grupo de 25 funcionários da empresa foi visitar uma aldeia do povo Kaiapó, próximo ao rio Xingu. Os  Kaiapó prenderam todos os funcionários com as voadeiras até que a empresa fosse pagar tudo o que devia a eles, pelos prejuízos causados pela barragem. Diretores da Norte Energia ameaçaram levar o caso à justiça para libertação de seus funcionários. Os Kaiapó mandaram dizer que  pode ir à justiça que eles saberão se defender.

Em resumo, os indígenas estão nos ensinando como é que se deve defender direitos que temos. Exemplo para tantas comunidades aqui na região que estão vendo seus direitos violados pelas autoridades e ainda ficam humilhados. Como diz o lema da Campanha da Fraternidade: “Será liberto pelo direito e a justiça.” Verdade!!!

Como é possível ainda alguém defender?

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NÃO SOBRE mas PARA A AMAZÔNIA

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Notícia para Rádio Rio Ar  –  25.03.2019

Boa tarde Cecilene e boa tarde você ouvinte interessado/a. Compartilho com você um acontecimento considerado por muitos como importante para católicos, evangélicos, protestantes, outras religiões e demais cidadãos de nossa grande e sofrida Amazônia. É que está acontecendo a construção do chamado sínodo para a Amazônia. Vai concluir em Roma em outubro próximo, mas já está em andamento em muitas comunidades da Pan Amazônia. Você por acaso sabia que nove países tem parte da bacia amazônica  em seu território? Pois é, o sínodo é será  mais um encontro de religiosos SOBRE a Amazônia, mas PARA a Amazônia. Isto quer dizer que primeiro, grupos de pessoas que vivem na Amazônia são convidadas a se reunir e dizer quais as necessidades maiores de sua região, para se buscar na luz da fé, soluções concretas. Imagine que a destruição de florestas na Amazônia já chegou a  perder 29,5 milhões de hectares de floresta do ano 2 mil até o ano passado. Ao falar na preparação do sínodo, há poucas semanas o cardeal brasileiro, Dom Cláudio Humes disse o seguinte: “Sema a Amazônia o mundo não sobrevive. O futuro está em jogo” concluiu o bispo. Basta observar a natureza para se compreender o que ele afirmou. O recente Ciclone ocorrido n África oriental matou 800 pessoas em Moçambique e dois países vizinhos. A cheia no rio Madeira alarmando as populações ribeirinhas de Rondônia, os garimpos em vários rios e barrancos da região, estão provocando reações incomuns na natureza. Daí a preocupação correta do cardeal Humes. O sínodo em construção não é sobre a Amazônia, mas para a Amazônia. Isto quer dizer que quem estiver tentando evangelizar os povos da região precisam fazer isto conhecendo as realidades e necessidades dos povos aqui vivendo. Lá no rio Juruá, município de Tefé, um grupo de cristãos discutiu sua contribuição ao sínodo. Mandou um recado aos que estarão reunidos em outubro no Vaticano. Disseram: “a Igreja precisa levar em conta que a Amazônia tem vários rostos, ribeirinho, indígena, jovem, feminino, caboclo. Estes rostos requerem  uma evangelização  a partir desta realidade amazônica e não importada da Europa, nem do sul do país.

Até quando a indignação popular vai suportar só murmurando?

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Análise da semana  Nossa Voz é Nossa Vida  – 24.03.2019

Cada semana me esforço para partilhar com você análise de situações sociais em nossa região. Nem sempre partilho situações positivas, infelizmente, mesmo procurando. Às vezes me sinto como o profeta do Antigo testamento que só denunciava  as infidelidades do povo a seu Deus e as atrocidades das autoridades. Pregavam uma esperança distante, tentando animar a caminhada do povo sofrido. Hoje partilho com você duas situações. Nosso país vive uma noite de trevas por causa de um governo que tudo faz para prejudicar os trabalhadores e os pobres. Entre outros golpes, o presidente e seu ministro da economia Paulo Guedes, insistem que deputados e senadores aprovem uma assassina reforma da previdência. Preste atenção em alguns itens dessa proposta assassina atingindo a aposentadoria dos trabalhadores:

– tempo de contribuição ao INSS para ter aposentadoria integral – 40 anos;

– pagamento para maior aposentadoria – R$ 5.839,00;

– idade mínima para aposentadoria integral – homem 65 e mulher 62 anos;

– Pensão para filhas não casadas – nada;

– pensão para filhos órfãos – só até 21 anos;

– trabalhador rural – para se aposentar tem que contribuir com INSS

– Sindicatos não mais terão imposto sindical obrigatório

Esta tragédia para os trabalhadores  é que está para ser decidida por deputados federais e senadores . Reações começaram embora ainda tímidas. Na sexta feira, 22 houve manifestações em todos os Estados do país, promovidas pelas centrais sindicais em 125 cidades. Segundo um dos líderes da CUT este foi um aviso ao governo Bolsonaro que se insistir na reforma da previdência haverá greve geral no país. Foi um bom sinal, embora ainda fraco pois só de um dia, que não assusta governo nem os empresários. Mais triste foi na cidade de Santarém. Em sintonia com as  manifestações em 125 cidades do país, alguns sindicatos locais chamaram uma reunião de preparação às manifestações  mas poucos militantes atenderam. Na sesta feira ficou marcada uma manifestação na praça São Sebastião. Mesmo tem havido convite e avisos pelas redes sociais, apenas seis militantes compareceram. Aquele fracasso, revelou quanto  os ameaçados pelo desastrado governo federal estão indiferentes em Santarém. São mais de 15 sindicatos urbanos em Santarém, além dos STTR, e da Colônia de pescadores, são mais de 30 associações de moradores, São dezenas de Igrejas cristãs, cujos congregados são vítimas do governo Bolsonaro e suas reformas. Mas a manifestação na praça não aconteceu por falta de união e lideranças dos movimentos sociais e partidos de oposição. Moral dessa estória, não basta se indignar, não basta xingar das idiotices do presidente da república e seus ministros irresponsáveis. É necessário organização, lideranças e ação unificada.

Esta indica que está havendo no bairro São Francisco da Nova República. Alí, o prefeito e seu secretário insiste em violentar a organização popular que mantém o micro sistemas de água. Querem arrancar uma organização popular que está assumindo regularmente a distribuição coletiva de água pelo micro sistema. Em vez de o prefeito e seu secretário se disporem a fazer um trabalho pedagógico de despertar a responsabilidade de cada usuário a cumprir com seu deveres de custear e manter o micro sistema, não. Querem eles tomar o sistema e entregar a uma empresa privada. Qual a vantagem?  Cobrar mais caro transformando a água numa mercadoria. Daí a resistência positiva dos usuários do bairro São Francisco. Esta é a situação positiva da semana e que deve ser imitada por todos os micro sistemas  do município, hoje ameaçados se serem transformados em mercadoria cara nas mãos de empresários.

Por que dia mundial da água?

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Editorial  RNA  22.03.2019

Hoje dizem que é dia mundial da água. Em que sentido a água tem um dia especial? Uma razão é a suma importância que ela tem para a vida no planeta. Ela é vida e não só para os seres humanos. Pode – se dizer que água é a vida. Sem água durante cinco dias a pessoa morre. Mas há outro motivo próximo deste, para hoje ser dia mundial da água. É que são mais de dois milhões de pessoas no mundo, que carecem de água para suas necessidades básicas e são mais de dois bilhões de pessoas que, ou tem água racionada, ou usam água poluída.

No caso da Amazônia, há uma razão extra para se ter esse dia da água, é o escândalo da água  dom de Deus, ser mercadoria. Como pode uma cidade como Manaus, cercada de água por todos os lados, esse precisos dom ser vendido? E como pode uma cidade como Santarém, com dois rios à frente, igarapés circundando e chuvas abundantes, água ser mercadoria? E assim certamente água mercadoria em Porto Velho, em Macapá, em São Luiz e tantas comunidades da Amazônia.

Não se pense que é exagero falar em mercadoria de água. Em Manaus a distribuição de água é entregue a uma empresa privada; Em Santarém mais de 20 micro sistemas de água no município, que até há pouco eram geridos pelos usuários de comunidades, agora o prefeito planeja tomar e entregar a uma empresa privada. A desculpa é que o município não tem condição de administrar o serviço. Alguém pode imaginar que uma empresa privada em Manaus, ou uma de Santarém, vai distribuir água sem procurar lucro? O serviço de distribuição de água é obrigação do município, para isso cobra imposto dos cidadãos, para água e esgoto. Ao entregar o serviço para uma empresa, estará privatizando um serviço público.

Voltando ao dia mundial da água celebrado hoje, se há uma região no mundo que tem obrigação de reverenciar e respeitar a água,  certamente é a Amazônia. Aqui está o maior reservatório de água doce; A bacia do rio Amazonas é um templo sagrado que não pode ser tratado como lixão, pocilga e desperdício. Quem na Amazônia estraga água, ou suja igarapé e rios é criminoso. Quem usa água com cuidado até ao tomar banho, ou escovar os dentes, está reverenciando o dom divino, que Deus e a natureza oferecem com carinho.

Riquezas vão, conflitos aumentam, amazônia desfolhada

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Notícia para Rádio RioMar  – 18.03.2019

Boa tarde Gecilene (coordenadora do programa da tarde) e boa tarde você ligado neste programa rico em informações e análises da realidade amazonense. Escute este título de um texto dossiê de análise sobre nossa Amazônia. Diz ele: “Amazônia brasileira: a pobreza do ser humano, como resultado da riqueza da terra”. Que você acha disso? Este texto foi escrito por pesquisadores do Instituto Tricontinental de pesquisa social. Por que tal afirmação?

Agora mesmo no Estado do Amazonas se tem um exemplo de conflito desse choque de interesses envolvendo a terra, os moradores nativos e os interesses externos. O governo federal quer a todo custo entrar mais uma vez nas terras do povo Waiamiri Atroari para passar com as torres de energia elétrica para Roraima. O presidente Bolsonaro chega a afirmar que aquilo é  de segurança nacional. Mas os mais de mil indígenas, restantes do massacre feito pelos militares durante a ditadura nos anos 1972/74, exigem hoje que o governo reconheça os crimes dos militares da época e pague uma justa indenização  aos donos do território invadido para abertura a ferro e fogo da rodovia Manaus/Boa Vista. Este é um exemplo do conflito que afirma o Instituto Tricontinental mencionado no início.

A Amazônia tem basicamente tudo o que é necessário para o bem viver dos povos que aqui vivem: abundantes frutos da terra, animais úteis para a alimentação, água potável em abundância, medicina da floresta, madeira para utilidade doméstica e construções. Até minérios seriam fonte de renda, se fossem explorados pelos nativos sem violentar a terra. Os moradores ribeirinhos ainda conseguem viver bem com o mínimo de coisas da cidade.

O problema é que o consumismo capitalista induz e seduz as pessoas a desejarem as ilusões do supermercado e do shopping center. Em vez do suco de cupuaçu, da manga e do açaí os iludidos preferem a coca cola e  suco enlatado; em vez da batata e do cará roxo, tão sadios e  nutritivos, avançam no pão e na bolacha e assim por diante. Enquanto isso, as grandes empresas nacionais e estrangeiras tomam conta dos minérios, da madeira e das águas. Aí está a Petrobrás em Urucu extraindo petróleo e gás e rasgando floresta para construir oleoduto; aí está a mineração Taboca esfolando a terra e extraindo vários minérios, Mais ali uma das grandes violências que é a barragem de Balbina, com uma hidroelétrica ineficiente para atender ao menos Manaus.

O que deixa alguém pensativo é o conformismo de nós e nossos vizinhos que vemos a desgraça aumentando, o calor mais quente, o desemprego crescendo e nossa Amazônia cada dia mais saqueada e os inimigos saindo com os navios carregados de riquezas e rindo de nossas caras. Imagina você, aqui em Santarém passam os navios  carregados de bauxita da norte americana ALCOA vindo de Juruti e navios carregados de Bauxita da Mineração Rio do Norte de Oriximiná. E não só,  saem quase três vezes por semana de Santarém,  os navios com 50 mil toneladas de soja do porto da norte americana CARGIL. A grande pergunta que deixo pra você e pra mim, até quando vamos ver os navios passarem, as riquezas saindo e a pobreza aumentando em nossa Amazônia?

DEFESA NACIONAL PARA QUEM?

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Notícia para Rádio RioMar  –  11.03.2019

Boa tarde Gecilene, oi! Manauara e ouvinte da importante emissora popular do Estado do Amazonas, vou puxar um assunto e gostaria de ter sua opinião: quem tem razão diante desse problema da possível falta de energia elétrica no Estado de Roraima? Talvez você saiba que toda a energia elétrica daquele Estado vizinho, depende de uma hidroelétrica da Venezuela. Com essa incompetente intromissão do governo brasileiro na crise do país vizinho, pode ser que o governo de lá venha a cortar o fornecimento de eletricidade para 49 municípios de Roraima. E aí, que fazer?

As torres de transmissão da energia de Tucuruí já chegam a Manaus, mas não chegam a Boa Vista. Isto porque o povo Waiamiri Atroari impede que o governo simplesmente leve em conta seus direitos e quer passar as torres na marra, por 300 quilômetros de suas terras. O Presidente Bolsonaro já decretou que a transmissão dessa energia para Boa vista é parte da defesa nacional. Será mesmo?

Quem analisa de longe, pode facilmente interpretar apenas um lado e concluir que os indígenas não podem impedir que os moradores de Roraima fiquem no prejuízo. Problema é, quem faz parte mesmo da defesa  nacional de que fala o presidente? Só os moradores de Roraima? E o povo Waiamiri Atroari não tem direitos? Será que os ouvintes da Rio Mar já esqueceram que em 1972, para atender a tal defesa nacional, os militares da ditadura de então, assassinaram quase todo o povo Atroari? Em 1972 o IBGE contava com apenas 350 pessoas de um povo que  pouco antes eram 1872 viventes.  Hoje 46 anos depois,  eles se recuperaram e contam com 2.100 parentes em 49 aldeias. Se alguém medir valor apenas por números, vaio dizer que os moradores de Roraima tem mais direito do que os Atroari, mas é esse um critério honesto?

O que deve  ser o certo e justo neste momento?  Existe uma convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, OIT que o Estado brasileiro é sócio. O Ministério público federal no Amazonas defende os direitos do povo Waiamiri Atroari que deve ser consultado de forma livre, bem informado na língua deles, sobre como quer o governo passar o linhão por suas terras. Deve ser feito um acordo entre as duas partes, governo federal e povo Atroari e os direitos dos Waiamiri devem ser respeitados. Não pode o ouvinte Manauara só olhar os direitos dos moradores de Roraima e os indígenas que se lixem. Não pode o governo federal alegar defesa nacional e mais uma vez passar por cima de cadáveres indígenas. Como diz o lema da Campanha da Fraternidade desse ano “serás liberto pelo direito e a justiça”. Chega de extermínio de povos tradicionais em nome de um tal progresso, mesmo que seja garantir energia elétrica para os moradores de Roraima. Concorda?